sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Veja, a Bolívia e as gafes da internet.

Me reservo o direito de ser não-linear, de não rever, de não mostrar. De outra forma não conseguiria escrever. Faz tempo que esse blog está no ar, mas por mais que eu faça sempre falta o empurrão "inicial".

Hoje, não sei como, fui parar nesse link. A situação da Bolívia é interessante e tudo mais, mas o que me chamou mais a atenção foi o novo tom, descontraído, em pleno site de revista de âmbito nacional. Primeiro, publicaram uma errata, o que seria uma coisa normal e correta de uma revista fazer, mas geralmente seria sobre um dado específico, no meio da matéria, que saiu mal calculado, um erro de digitação ou uma informação trivial. O erro, nesse caso, era simplesmente uma manchete que virou viral. "Desculpem-nos, a Bolívia não vai expulsar a Coca-cola". Oi?

No filme Doubt, com a linda Meryl Streep, em uma das missas o padre conta o caso de um menino que se confessa pedindo perdão por ter espalhado uma mentira. O padre então, em vez de recomendar orações diz ao menino para pegar um travesseiro de pena, subir no alto do telhado da casa no morro mais alto, abrir o travesseiro e deixar as penas voarem. E assim o menino fez, e viu aquela imensidão branca se espalhando por toda a vila. Penas pra todo lado, empurradas pelo vento. Voltou ao padre e disse que já tinha cumprido sua penitência. O padre então disse "agora recolha todas as penas e coloque de volta no travesseiro". O menino ficou assustado "mas padre, é impossível, elas voaram por todo lugar, caíram no rio, dentro das casas ou foram levadas pelo vento". Então o padre concluiu "pois um boato tem esse poder. Se você diz algo que não é verdade, ou espalha um boato, ele corre por todos os lados, como as penas, e o dano que você causou torna-se impossível de reparar".

Eu não sou uma pessoa ativista, engajada, sabedora do que se passa pelo mundo e muito menos crítica social. Não estou preocupadíssima com a Bolívia e a repercussão da notícia, muito menos na credibilidade ou não da Veja. O que me chamou atenção mesmo foi essa coisa de cometer tamanha gafe. A internet deixa a coisa correr bem solta. Imagino um escritório de uma revista grande, às vésperas da publicação, o revisor correndo com os textos, repórteres amontoando dados sobre as próximas matérias, gente andando pra lá e pra cá, designers montando o texto, revisores tirando partes, conferindo informações, trocando parágrafos de ordem, atrapalhando todo o trabalho do designer, enquanto o jornalista vai procurar o editor-chefe para mostrar uma proposta para outra semana. Ou algo do tipo. Mas tudo tem que estar pronto até a hora da impressão. Em tanta correria, pode ocorrer um erro, que será comentado, punido e corrigido na próxima revista.

Com a internet eu imagino que essa correria seja triplicada, tudo tem que ser em tempo real, e pior: Mais rápido que a revista concorrente, ou pelo menos ao mesmo tempo, mas como uma visão própria, crítica, do ângulo que a nossa revista está acostumada a colocar... E tem revisor pra isso tudo? Não só gramatical, mas um revisor jornalista, que vai conferir a veracidade de tudo que sai pelo site. Talvez não. Mas a internet massacra. Uma informação errada, que seja de conhecimento do povo, e logo mil comentários via Facebook massacram aquela reportagem que logo tem que ser tirada do ar. Mas a gafe já foi, talvez até exista um print sobre ela.

Uma vez vi um erro de tradução péssimo no Facebook de uma revista (na verdade até hoje não entendi se é uma revista ou só um portal). Tinha uma senhora modernosa nas fotos, com um casaco de couro e uma camiseta branca escrita "Not at your age". E a tradução que colocaram foi "você não é a sua idade". Achei grotesco. A mensagem em português é jovial, bela, valorizando o interior das pessoas e dizendo para sermos sempre jovens de alma. Um comentário bem da moda. Até leve e agradável. A tradução real, no entanto, seria "Não na sua idade". Uma mensagem completamente diferente, criticando a precocidade, talvez, ou até mesmo um comentário bem moralista e chatinho de uma velhinha sobre os jovens de hoje. Completamente diferente da falsa tradução. Não deu outra. Menos de 20 minutos da postagem, vários internautas corrigiram, riram, comentaram. Estava errado. Simples assim. Dificilmente vou me esquecer da atitude da revista, que resolveu apagar a tradução, deixar em branco, e dar respostinhas raivosas para os internautas. Obviamente era uma revista bem menor, mas não deixava de ser um site sério. Esse comportamento marca bem o novo modo de comunicação via internet. Toda essa impessoalidade, esse monte de erros e nenhuma culpa. Aliás, a culpa, ou melhor, a falta de culpa... Nem vou começar nesse assunto.


Tudo isso porque eu queria comentar sobre a informalidade de um trecho do artigo da Veja. Naquele mesmo link, um trecho assim: "A notícia, no entanto, se propagou à velocidade da internet, que muitas vezes leva a imprensa a atropelar uma das cláusulas mais sagradas de seu contrato com o leitor: nunca publicar aquilo que não foi exaustivamente checado. O site de VEJA também descuidou desse dever num artigo com o título "Bolívia expulsa a Coca-Cola, e McDonald's quebra no país". Daí a existência desta reportagem. Ela vem para reconhecer o erro, pedir desculpas ao leitor - e passar a limpo uma história que afinal de contas, é mesmo curiosa e merece ser contada."Revistas já tem uma certa informalidade, mas esse trecho achei "internet demais".




Por fim, aproveitando que já me permiti ser não-linear fica a dica que a reportagem deixou, de talvez assistir ao curioso documentário, ¿Por qué quebró McDonald's en Bolivia?.